Performance, pasteurização e a nova fronteira da diferenciação
Como gênero, gosto, corpo e trabalho se tornaram palcos no cotidiano digital
Gosto muito de acessar o Twitter (ainda uso esse nome) antes de dormir, como uma espécie de higiene do sono depois de momentos rolando a fy do TikTok (não sou uma grande fã do Instagram). Eu geralmente decido o tema do meu novo post por aqui no fim de semana, mas dessa vez, em uma quarta, dia em que publico meus ensaios, um tweet chamou minha atenção. Ele dizia:
“pra mim a cultura da performance é positiva e faz a gente se interessar pelas coisas num mundo tão pasteurizado.”
A imagem que acompanhava o post era irônica: alguém encenando um “eu performático”, cercado de livros, caderno aberto, iPod e um par de sapatos estrategicamente posicionados no enquadramento da foto. Tudo organizado para ser visto, para ser consumido visualmente por outros. Um “still life” de persona digital, que denuncia a encenação sem necessariamente desqualificá-la.
O comentário do Thiago, autor do tweet, vai na contramão do senso comum: ao invés de criticar a performatividade, ele sugere que ela pode ser uma forma de atenção e engajamento com o mundo. Num cotidiano saturado por microtrends estéticas, música pop genérica e estilos que se esgotam em semanas, a sensação de pasteurização é real. Mas será que essa uniformização elimina completamente a experiência estética? Ou será que a performance é justamente o que devolve intensidade e significado ao cotidiano?
Música viral como case da pasteurização
Na última semana, uma música cuja letra parecia ter sido gerada por inteligência artificial tomou minha fy:
“Ela é o morango do amor / fofinha e bravinha tipo um Labubu / colore o mundo igual o Bobbie Goods / adora copo Stanley e pod de tutti frutti…”
A canção é, essencialmente, um inventário de consumo: personagens fofos, objetos desejáveis, doces hypados, referências importadas. Um catálogo que define estilos de vida e cria uma linguagem compartilhada entre quem consome esses signos. O que muitos enxergaram como “sem personalidade” ou “normie” foi, paradoxalmente, o que permitiu que a música se espalhasse: ela é uma performance de tendências reconhecíveis, funcionando quase como senha de pertencimento.
Aqui vemos a cultura de algoritmo em ação. A música não é só um produto artístico; é um meme que catalisa atenção, um microcosmo do que se torna viral num ambiente pasteurizado. Quase como se o ato de performar o gosto, mesmo que aparentemente genérico, fosse a própria essência do sucesso digital.
Sincronia cultural: o vídeo de Jorge Grimberg
Na manhã seguinte ao print do tweet, Jorge Grimberg publicou um vídeo refletindo sobre o gosto “pré-fabricado” do consumo atual. Ele mostrava como seguimos padrões de desejo coletivos, muitas vezes sem nos dar conta — e de repente, tudo parecia se alinhar: o tweet, a música viral, o vídeo. Juntos, formavam uma espécie de sincronia que captava a sensação de estarmos presos a uma estética repetida, mas ao mesmo tempo fascinados por ela.
Eu sempre gostei do 3 Minutos de Moda e já fiz um curso com o Jorge há uns três ou quatro anos. Assistir ao vídeo foi como um lembrete: é hora de voltar a falar sobre performance. Não é só sobre moda ou consumo; é sobre como construímos e encenamos nossas identidades num mundo saturado de sinais visuais e microtendências. Alguns posts atrás, comentei sobre performance no novo luxo, um mercado que tenta se reinventar diante da alta dos dupes e de uma recessão global. O que antes era exclusividade de objetos agora precisa ser performado em gestos, escolhas e signos que tornam cada consumo visível, reconhecível e, de certa forma, teatral.
Essa tríade — tweet, música e vídeo — evidencia três fenômenos interligados: a necessidade de se destacar em meio à homogeneização; o uso de signos reconhecíveis como meio de pertencimento; e a consciência de que o consumo é também encenação, seja de estilo, gosto ou identidade. Mais do que sinais isolados, são movimentos que nos mostram como performance e distinção caminham lado a lado no cotidiano contemporâneo.
Performative male: novos palcos da masculinidade
Se a vida virou performance, a masculinidade não poderia ficar de fora. No TikTok, proliferam figuras que alguns chamam de performative males: homens que evitam o estereótipo tradicional de “macho alfa”, que bebem matcha, compartilham playlists de MPB suave, falam sobre leituras, cuidados pessoais e estética minimalista. A diferença entre eles e o “homem comum” não é apenas de gosto, mas de encenação pública: cada detalhe do feed funciona como um sinal cuidadosamente calibrado de distinção.
Há alguns anos, esses personagens teriam sido apelidados de “esquerdomachos”, termo irônico usado para homens de classe média-alta que se preocupavam com estilo e consumo cultural. Hoje, o palco mudou: o objetivo não é apenas provar sensibilidade, mas demonstrar singularidade num ambiente saturado de algoritmos, microtrends e memes. Cada matcha fotografado ou camiseta vintage escolhida funciona como assinatura de estilo performativo, quase uma coreografia digital.
O conceito de gênero como performance, formulado por Judith Butler em Gender Trouble, é essencial para entender esse fenômeno. Para Butler, gênero não é uma essência fixa, mas algo que se faz repetidamente. Ele só se torna “real” na medida em que é reiterado em atos visíveis. Cada gesto do performative male, desde a escolha de livros escritos por mulheres até a ecobag do dia a dia, é uma repetição performativa que constrói uma identidade percebida pelo outro.
Aqui entra também Erving Goffman, em A Representação do Eu na Vida Cotidiana, ao comparar a vida social a um teatro. Segundo Goffman, alternamos entre palco e bastidores: em público, encenamos papéis; em privado, podemos nos permitir relaxar. O feed do TikTok é, de certo modo, um palco ampliado: o público não é apenas conhecido ou colegas, mas algoritmos, estranhos e comunidades de interesses que operam como plateia. O performative male encena-se de forma consciente, mas não por falsidade: ele realiza uma performance necessária para existir socialmente nesse espaço saturado.
O que esses exemplos nos mostram é que performance e autenticidade não são opostos. Ao contrário: a performance é a forma de materializar autenticidade percebida. Ela permite que indivíduos se diferenciem, criem pertencimento e validem seus gostos diante de uma plateia invisível, mas altamente influente. Em um mundo pasteurizado pelo algoritmo, a performance é, paradoxalmente, o que devolve intensidade e singularidade à vida cotidiana.
Do brega ao capital cultural: estética como operação social
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Uma música viral no TikTok — cujos primeiros versos já mencionei e que lembra composições do Projeta — lista trends recentes como Labubu, Bobbie Goods, copo Stanley e picolé de pistache. Ela descreve um universo de consumo e estilo que, para certos grupos na internet, é rotulado como “sem personalidade”, “brega” ou de “seguidores da Virgínia”. A crítica não se limita ao conteúdo da canção; ela revela como gostos, distinção e classe social estão profundamente entrelaçados.
Para Pierre Bourdieu, em A Distinção, o gosto não é apenas uma questão estética, mas uma forma de operar distinção social. Chamamos algo de “brega” não apenas porque é repetitivo ou exagerado, mas porque se associa a um consumo percebido como popular. O julgamento estético funciona como marcador de posição: indicar que algo é “brega” é, na prática, afirmar “isso não é para mim, é para gente comum”.
Essa lógica se conecta com Georg Simmel, em Philosophy of Fashion, que descreve a moda como um jogo de imitação e diferenciação. Buscamos nos aproximar de grupos para pertencer, mas também nos distanciamos para nos destacar. Assim, tendências amplamente compartilhadas no TikTok, que parecem pasteurizadas, não são neutras: elas atuam como terreno de disputa simbólica. Participar ou se distanciar de uma microtrend passa a ser um ato de distinção social, consciente ou não.
O fenômeno não se restringe a músicas virais ou roupas. Procedimentos estéticos, como preenchimento labial, extensão de cílios ou tratamentos de pele, seguem a mesma lógica. Tornados mais acessíveis, esses procedimentos passam a ser criticados, Em contraste, cirurgias estéticas caras, inacessíveis para a maioria, como o lifting recente feito por Lindsay Lohan, Anitta e Kris Jenner, raramente sofrem o mesmo estigma. O capital cultural — conhecimento, prática e acesso — se combina ao capital financeiro para criar camadas de distinção cada vez mais sutis.
O consumo digital funciona como amplificador desse processo. Memes, tweets e vídeos virais não apenas replicam tendências; eles reforçam o circuito de distinção. A música “Labubu” não é só uma colagem divertida de signos de consumo: ela é um marcador de pertencimento, mas também um teste social. Quem se identifica, participa; quem critica, se distancia, reafirmando sua posição simbólica. Se a distinção social migra para o gosto, não é surpresa que o corpo também se torne palco dessa performance.
O corpo como palco da distinção
Se objetos e tendências podem ser comprados, duplicados ou democratizados, o corpo surge como a nova fronteira da diferenciação. A lógica é clara: quando o luxo se torna acessível, a exclusividade migra para aquilo que não se compra tão facilmente - o corpo, seus limites, suas formas e sua capacidade de encenar estilo, saúde e disciplina.
Um exemplo recente é a ascensão da magreza impulsionada por medicamentos como os análogos de GLP-1, incluindo o Ozempic. No Brasil, o acesso a esses medicamentos ainda é restrito e caro, mas já se observa um efeito simbólico: perder peso rapidamente se torna um marcador de acesso e capital. Aqueles que conseguem seguir rotinas de exercícios, dietas, acompanhamento médico e uso de medicamentos de ponta performam não apenas saúde, mas também pertencimento a um grupo que domina os códigos estéticos contemporâneos.
Curiosamente, esse movimento gera deslocamentos simbólicos. Pessoas que antes buscavam preenchimentos estéticos agora buscam diluí-los ou naturalizá-los, alinhando-se a um novo padrão de “autenticidade sofisticada”. O corpo feminino, em especial, se transforma em campo privilegiado de disputa simbólica: moda, estética e capital cultural se concentram nele. O “natural” performativo - cabelo saudável, pele limpa, silhueta magra, maquiagem leve - é resultado de recursos financeiros, disciplina e acesso médico, mas é percebido como espontâneo.
Além disso, a mídia e o TikTok amplificam essas performances. Influenciadoras e influenciadores exibem rotinas de autocuidado, dietas, treinos e consultas médicas como conteúdo performático, reforçando padrões de desejo e moldando a percepção social do que é “corpo bem-sucedido”. O corpo, nesse contexto, não é apenas um espaço de consumo; é palco, vitrine e instrumento de distinção.
O que antes era status por objetos ou roupas agora é status por hábitos, estética corporal e presença digital. Cada postagem no feed, cada vídeo mostrando resultado de dieta ou procedimento, é uma encenação calculada, mesmo que pareça natural. A diferença entre “autêntico” e “performático” se dissolve: tudo é performance, mas uma performance que comunica posição social, gosto e pertencimento.
Tudo é performance, até o trabalho
Se antes a distinção se fazia por objetos de luxo ou acessos a lugares exclusivos, hoje ela se estende ao trabalho e à presença digital. O mundo profissional exige performance constante: médicos, nutricionistas, terapeutas, pesquisadores ou qualquer profissional que lide com visibilidade — mesmo que mínima — se vê na obrigação de manter perfis ativos, produzir conteúdo e aparecer em vídeo. Estar ausente das redes sociais é, muitas vezes, equivalente a “não existir” profissionalmente.
Essa lógica se conecta com Richard Schechner e seus estudos em Performance Studies, que ampliam a noção de performance para além do palco artístico: ritual, esporte, cotidiano, tudo pode ser entendido como encenação. Na prática, isso significa que o cuidado de si, a rotina de trabalho e até momentos de lazer se tornam palcos digitais. Cada postagem é um ato desempenhado, cada interação um gesto coreografado que comunica competência, estilo ou pertencimento.
O conceito de “bastidores” e “palco”, descrito por Goffman, ganha nova dimensão: não existe mais apenas o backstage íntimo da vida cotidiana. O feed do Instagram ou TikTok transforma a rotina pessoal e profissional em espetáculo contínuo. Perfis profissionais exibem conquistas, rotinas de trabalho, livros lidos, cafés tomados, o Pace da corrida e reuniões importantes, tudo cuidadosamente selecionado para construir uma narrativa coerente e encenada.
Até o trabalho criativo e intelectual é performado. Pesquisadores, professores e profissionais de moda ou tendências compartilham insights, tendências e análises em tempo real, transformando o conteúdo do dia a dia em material de engajamento público - eu mesma não me excluo disso. Essa exposição constante cria tensão entre autenticidade e espetáculo: quanto do que é postado é “vida real” e quanto é encenação estratégica? A resposta é que essa distinção se torna cada vez mais tênue, e, talvez, irrelevante.
O efeito é que o próprio conceito de produtividade se altera. Ser visível, performativo e reconhecível se torna tão importante quanto realizar tarefas ou produzir resultados concretos. A vida profissional se torna palco de distinção, em que a performance é tanto ferramenta quanto efeito colateral. A visibilidade digital, os microgestos de estilo e autocuidado, e a narrativa de expertise se combinam para produzir capital simbólico, cultural e social.
Qual será a próxima fronteira da diferenciação?
Se tudo se tornou performance — gênero, gosto, corpo, trabalho — talvez a questão central não seja mais viver de forma “autêntica” ou “pasteurizada”. A pergunta que emerge é outra: quando até a vida cotidiana virou espetáculo, qual será a próxima fronteira da diferenciação?
A música viral que combina Labubu, copo Stanley e pod de tutti frutti nos mostrou que o trivial pode se tornar performativo e gerar pertencimento. O performative male revelou que o gênero é reiteração, encenação e diferenciação em público. O corpo, transformado em palco, sinaliza disciplina, acesso e capital. E o trabalho, encenado digitalmente, se tornou vitrine e palco simultaneamente.
Tudo isso evidencia que distinção não desapareceu: ela apenas migrou. Não se trata mais de ostentar o objeto certo, mas de performar o gesto, a escolha, o cuidado, a rotina; de tornar visível aquilo que, antes, era intimamente privado. Cada microtrend viral, cada vídeo de rotina, cada post de conquista profissional ou estética corporal é uma cena dessa performance contínua.
Essa constatação é ao mesmo tempo fascinante e inquietante. Fascinante porque nos permite observar de perto como cultura, comportamento e consumo se entrelaçam; inquietante porque a pressão para performar nunca foi tão onipresente. Diferenciação deixou de ser apenas econômica ou estética: tornou-se performativa, social e digital, obrigando todos a encenar seus papéis em um palco coletivo e invisível, onde o público é tanto o outro quanto o algoritmo.
O que vem a seguir? Talvez seja um deslocamento ainda mais sutil: fronteiras de diferenciação que não se veem, mas se sentem. Microgestos de linguagem, pequenas escolhas de consumo, modos discretos de autocuidado ou silêncios estratégicos podem se tornar os novos marcadores de status. Em um mundo saturado de performance, a próxima distinção poderá não estar mais no que mostramos, mas no que conseguimos tornar invisível, e ainda assim socialmente legível.
Enquanto isso, continuamos a performar: no feed, na rua, no trabalho, no corpo, na estética, no gosto. Cada ato reiterativo, cada escolha encenada, é ao mesmo tempo pessoal e coletiva, trivial e carregada de significado. Em tempos de pasteurização, talvez seja justamente essa encenação que devolve intensidade e singularidade ao cotidiano.




